Bordado e costura unindo gerações

Bordado e costura unindo gerações

Imagem: Arquivo Pessoal/Vitória Fantuzzi

Quando penso em bordado, automaticamente, vem à mente imagens de senhorinhas em seus cabelos grisalhos, mãos enrugadas e dedos tão calejados que nem sentem as picadas das agulhas enquanto costuram. Contudo, essa não é mais a realidade plena do universo das linhas e tecidos. Cada vez mais, somos apresentados a mulheres jovens, entre seus vinte e trinta anos, que encontram no bordado e na costura um novo jeito de se conectar com o mundo. 

O bordado teve desde suas origens uma função estética, ornamentando peças com linhas e fios diversos, formando os mais incríveis desenhos. Até mesmo na Bíblia, como no livro de Êxodo, encontramos passagens que se referem a essa arte manual. “Farás vestes sagradas para Arão, teu irmão, para glória e ornamento […] As vestes, pois, que farão são estas: um peitoral, uma estola sacerdotal, um sobrepeliz, uma túnica bordada, mitra e cinto.” (Ex. 28.2-4)

É por isso que abadias e mosteiros, já no século VII, transformaram-se em verdadeiras oficinas de artesanato. O trabalho ali visava ornamentar as vestes religiosas e civis, e que posteriormente, com o passar das décadas, estendeu-se à tapeçaria e aos materiais de decoração. Logo, era compreensível que a grande maioria das bordadeiras fossem mulheres inseridas nos meios religiosos. 

Hoje, séculos depois, a arte continua viva, mesmo com a tecnologia a todo vapor e invenção das máquinas de costura e bordado. Podemos dizer que o que mantém as linhas e agulhas em movimento, para além da necessidade de uma peça de roupa e decoração, é o sangue que continua a percorrer, quente e vivo, apaixonado e determinado a continuar levando o amor pelas artes manuais. 

Imagem: Arquivo Pessoal/Vitória Fantuzzi

Para Vitória Fantuzzi, 21, suas maiores referências são os membros da sua própria família. Avós e tias que desde pequena lhe passaram o amor pela costura e bordado, ensinaram os primeiros pontos e a guiaram na paixão pelo artesanato. “Meu avô paterno também foi um excelente alfaiate, pelo o que me contam, porque não tive o prazer de conhecer. Eu herdei algumas coisinhas dele aqui. As réguas que ele usava para costurar, hoje são minhas. Então são eles, minhas maiores referências.”

Durante o período da pandemia, Vitória pôde finalmente se reencontrar com sua criança interior e trazer para o seu dia a dia a paixão que estava adormecida até então. Nossa bordadeira protagonista de hoje não passou por esse processo “sozinha”. Tantos outros, homens e mulheres, (re)descobriram suas habilidades manuais e tomam passos importantes para recuperar essa arte e resgatar sua história. 

As artes são repletas de significado, força e luta. E para Fantuzzi, “O bordado carrega em si muita história de patriarcado, de vivência das mulheres em casa. E a gente está podendo trazê-lo para um contexto onde podemos fazer, não só para ficar em casa, quando mulheres casavam e bordavam […] Hoje, a gente tem como ressignificar isso e por meio desse bordado, mostrar nosso posicionamento, levantar assuntos importantes, como feminismo, política.” 

A Vênus Crochê, por exemplo, é um empreendimento de mãe e filha negras, Luciandra Santos, 58, e Bárbara Pinheiro, 22, (talvez esse nome seja familiar para vocês), que nasceu em 2020, na busca por um complemento na renda familiar, mas ainda mais importante, como um escape na luta contra a depressão da mãe. Juntas, buscam resgatar a valorização do trabalho manual, além de levantarem bandeiras do empreendedorismo feminino, do feminismo negro e da eco sustentabilidade. 

Assim como Vitória com seus bordados, Luciandra e Bárbara transmitem para as linhas todo amor, cuidado e dedicação, para assim produzirem lindas peças como ecopads, toucas, fronhas e buchinhas de cetim. Cada uma dessas peças carrega consigo significados fortes na luta pela representatividade e visibilidade negra, reforçando para essas mulheres a importância do autocuidado, seja do rosto, corpo ou cabelo. 

O bordado e a costura são universos que se cruzam e ambos, repleto de afeto, amor e resistência. E, principalmente, com uma força gigantesca de transmissão para este mundo das mais puras e singelas mensagens. É a oportunidade de olhar para dentro, de se conhecer, de respirar e de simplesmente curtir um momento terapêutico com a sua própria companhia. 

Vitória nunca esteve em Toledo, no Paraná, mas a sua arte sim. “Eu não estou lá, mas minha arte está”. Um pedaço dela, de seu amor, cuidado, tempo e dedicação, hoje, fazem parte da vida de uma outra pessoa, e para todo artista, é um sentimento único e especial.

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